12 : Dia dos Namorados
Julho 27, 2006I try to catch your eye
Leonard Cohen, “Stories of the street”
– Mas você nunca morou com ninguém?
– Mas você nunca morou com ninguém?
Toca a campainha.
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Sou a única versão dos fatos, você vai ter que acreditar em mim. Assim, creia: meu nome é Helena e eu adoro cheiro de gasolina. OK, você pode achar estranho esse início – desculpe; não sei me identificar como Helena H., 25, fotógrafa e garota-propaganda [você acredita nas legendas das fotos dos diários? acredita em noticiários? que aquelas coisas realmente aconteceram? Ou tudo não seria uma conspiração para anularmos nossos dias em detrimento de naves que caem no Paquistão, a última besteira proferida pelo presidente da corporação ou o novo holodrama que vai mudar a sua vida?], e sou uma mulher que não gosta de escrever usando esses handrands, sou estabanada, vivo quebrando as unhas nos controles; por isso escrevo à mão, e dentro da minha banheira, de preferência. Sim, estudei caligrafia, essa coisa arcaica, na época em que tatuei as rosas que decoravam todo o lado esquerdo de Salvia Divinorum… Não, esse início não está mesmo bom, mas estou tão nervosa – é a primeira vez que você olha para mim, seus olhos se apertando a cada letra dessa caligrafia flutuante como água, minha linguagem, buscando capturar você de corpo todo; e não compreendendo, talvez, que raios vim fazer na sua vida, quem sou, o que quero. Tudo o que eu posso dizer no momento é que meu nome é Helena H, que sou fotógrafa e que os pêlos da minha nuca se agitam quando sinto o cheiro de gasolina no ar, e que foi por isso que resolvi te escrever. Gasolina hoje que é tão cara quanto o perfume mais impossível. Se fosse antigamente, talvez quisesse só morrer e me mataria de algum modo idiota, já pensei em me afogar durante as tormentas de verão, quando os azaratones sobem pelos postes e pelos antigos prédios do século dezoito comendo os passantes vivos; mas pensava que em vez de mergulhar numa boca de lobo poderia é cair na boca de um azaratón então preferi virar outra coisa – outras coisas: ser muitas diminui qualquer solidão. Minha mãe, Anjelika Zapata, costumava contar as histórias do Grande Incêndio dos RGs que rolou lá faz quase quinze anos, eu deveria ter uns dez, quando as cirurgias plásticas e as metamorfoses orgânicas ficaram tão baratas quanto os passaportes no câmbio negro. Nascia a Era das Personalidades Intercambiantes, foi assim que a mídia registrou o fato – entanto, logo os fatos começaram a se dissipar pois os jornalistas também viciaram na coisa e passaram a assinar matérias com nomes cada vez mais diferentes e aí ninguém mais acreditava em nada do que lia; tinha sempre um novo impostor contando novas mentiras corporativas sobre política, futebol, comportamento, economia, cultura… Sim, eu li os Livros Proibidos… Você sabe bem disso, não consigo me esconder de você. Hoje, fico aqui falando com você mas sei que no fundo você sou eu – e isso é o que mais me irrita: mesmo com a possibilidade de sermos outros, continuamos falando somente para nós mesmos; como faziam os blogueiros do começo do século, máscaras em frente ao espelho, ao infinito… Preciso de uma bebida. Antes que eu invada um posto e peça pra me enfiarem gasolina azul nas veias. Foda. Ser várias não é pra qualquer uma.
Deus é noise é noise é noise. Barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau. Os biciclopes, as dildodeidades, os homocangurus, meus irmãos em falta de armas, levantem-se. Tem que ter cor, tem que ter coragem, porque quem tem cor, age. Eu sou a soma de todas. Ou a ausência de nenhuma. A lua senão reflexo é. Anões sem braços – os bibelomilos –, as sereias gostosíssimas e tortas chamadas supermancas, e os tecnocentauros, possantes cadeirantes sem mais dinheiro pra comprar óleo para suas engrenagens. Aqui no vale da Zuma todos são zumbis a buscar a lua cheia para romper o plexo solar com a lâmina lavrada no batuque. Caçam sua passagem em Zuma, o vale do último gesto. Aqui ninguém mais agüenta a hora morta do mundo escuro. As gurias azuis com lixa na buceta, os homens-catracas descartados pelas últimas companhias de transportes coletivos, as anciãs-esteiras despedidas dos obsoletos supermercados. Aqui, agora, se pacta a autosabotagem, a vingança mútua, o rito das mônadas que não deram certo, a brodagem no vacilo – tudo na crocodilagem genérica. Sob o noise o noise o noise dos tambores unvulados dos Vovôs Coisos. Os que ficaram à margem, roendo o próprio osso. Meus irmãos em lapsos de DNA, os inventos que ninguém mais quis, nascidos em baias, por trás de vitrais, dentro de tubos de ensaio, a gênese ali no íntimo do asséptico de cada laboratório ou boca-de-porco genética do Estado da Transição. Meus irmãos, as mulheres lacraias, os homens aquosos, as mademoiselles mengele – com um implante neural no rabo, falam diversas línguas com a bunda. Um tesouro de genes recessivos, uma barragem que não se sabe fluxo nem nexo. Prontos para o meu veneno. Sim, foram dilapidados de credo – mas não de medo. Medo não tem segredo. Única força ganha na rapinagem. A crocodilagem é geral entre irmãos que não se reconhecem o sangue. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O vale do último gesto, berço da minha experiência. Campo de dispersão de energia, fuleiragem sem folia, a dança das carcaças ensaia seus passos na clareira aberta por meteoros. Lepra, varíola, aids, câncer e fogo selvagem. Uma usina de extertores. Zuma. Ouve-se por quilômetros o roar dos Coisos que se suicidam. É noise é noise é noise. Tudo aqui nasce sem longitude nem latitude. Um ímã de nada. Um casal de cada ímpar fode-se e se crava a lâmina no peito. Um do outro, zero a zero. Amor, enfim essa arca inversa. Enquanto se fodem e se fodem, eu preparo o difusor da Palavra. Um nome pra droga como outro qualquer. Um grave formado por batidas de crânios contra peles de ex-humanos. Zuma é o vale do último gesto. O que cria o homem. O que cria um novo homem. E é esse gorila albino que vem lhes trazer o conforto. Serei vosso Messias, vós que perdestes o sangue. Que nem pensariam em honra. Aqui não há tempo para árvores secas ou dramas de falas. Onomatopéia aqui é luxo. Mesmo os cegos escoam luz pelos olhos. Quatro ruas levam ao círculo onde se recolhe o sangue dos mártires de laboratório. Aos poucos, forma-se um lago nos Quatro Cantos de Zuma aqui onde era antes uma encosto do Morro da Conceição, perto do antigo Alto Zé do Pinho. Aqui em Recífilis. Um poço suga a doença e a leva para o mar. É a crença. É para lá que desço, carregando minha mochila de sacanagens. Não prender a passagem, essa a rima. É noise é noise é noise. Há cinco anos eles aqui chegam pra morrer. Mas de hoje em diante o sangue correrá de volta a suas veias. O homem só se conhece na destruição. Verto o veneno sagrado na vala de todos os sangues. A Palavra chegará aos vossos corações, mas falará em um dialeto que desconheço. Não há tradutor para o medo. Noise é noise é noise. Cascatas de ruído branco, a cor da coragem. Os Coisos se levantarão ás cinco e meia da madrugada. Uma única estrela sobre as escarpas das quatro montanhas que velam o Vale de Zuma. O rio subterrâneo que flui da lua para o mar. A Palavra se ligará em todos os fluxos, lava gelada. Meu trabalho é lento e continuado, não tem descanso. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O raio da prata sobre esses subumanos de lata. O poço reflete rubros meus olhos, a lua. Uma nuvem. Mergulho. Logo caminharei sobre as águas. Butthole Kongo. Um mensageiro. Ouço as novas vozes dos Coisos, meus filhos. E sumo.
Rachel entra em casa silenciosa. Ela pensa que não. Mas eu sempre acordo quando minha mulher chega. Eu finjo. Fingir é nosso método, é o que nos une sob mesmo e outro uniforme. São seis da manhã. Ainda escuro. Quente já. Passei a noite toda escrevendo. Imaginando-a na sentinela, meus pensamentos perseguindo os anéis da fumaça do seu vigésimo cigarro. A Uzi feito um cão sobre seus pés dormentes no frio dos coturnos, o metro por metro que lhe adelgaça e espessa os músculos, a janela que é penteadeira para a sua vaidade insular – as rajadas, a música da caixinha em que ela, bailarina, ensaiaria seus passos de ganso. Esta noite passei escrevendo poemas sobre meu deus, meu paraíso, meu inferno, sobre a ponte que separa os dois abismos e os túneis de Rachel. Nós indissociáveis de minhas fibras. Eu sinto o odor de seu uniforme e a ouço riscar os fósforos para o penúltimo cigarro do dia – sempre fuma um antes do café, e outro antes de dormir, pouco antes de sua língua nitotinada vir brincar comigo. Primeiro mandamento: escova mil vezes os ruivos cabelos de tua amada tão logo ela entre em casa. Poemas sobre o muro que nos habita, sobre os cabelos que crescem dentro do coração e sobre o cheiro forte que as dobras judias de Rachel deixam em minhas digitais turvando-me os olhos sobre os caracteres que desenho de trás para a frente, de baixo para cima, sempre para cima – minha escrita ascende aos céus incorporando-se ao fumo do meu haxixe. E sinto as solas dos coturnos que avançam mornos e sujos sobre meu peito, marcando-me com chicletes, cigarros e os mijos das cascavéis da tríplice fronteira. Faz tempo que não chove nessa maldita cidade. Aqui só bombas. E o pior é que gosto disso. Segundo mandamento: conhece a densidade, o aroma e a cor da graxa dos sapatos da tua mulher como sabes da sombra de teus líquidos mais interiores. Escuto Rachel ligar o filtro de água, escuto as bolhas de ar em seu copo, escuto a água descendo por sua garganta – bebemos a mesma água já faz uns anos. Isso não pode continuar. Em breve, minha prima e amada Rachel vai perder seu emprego por mim, eu, o poeta barbudo oculto debaixo de sua cama, aquele que só vive à noite. O nariz de minha prima feito uma linha do horizonte na miragem do deserto de Hebron, deitado parece uma montanha raquítica do Sinai. Quando a vi a primeira vez, Khaled Al-Zahhari havia me mandado passar um recado para os nossos em Haram el-Sharif. Mais uma ação de rotina. Ela fazia ronda perto de uma delegacia que havíamos explodido duas semanas antes. Seus dedos se alongavam no fuzil e as mesmas nuvens que haviam deleitado os profetas cambiavam de cor lá no interior de suas pupilas enquanto ela me fixava o olhar – ou seria o haxixe que meu amigo Sah Men-Ezz tinha me dado faria efeito demais? Terceiro mandamento: mantém tão brilhantes as fivelas do uniforme da tua amada quanto as lâminas em que afias tua vingança. Claro que não posso escapar da minha sina - do meu pau que demarca cada vez mais latifúndios nessa selva de paredes e línguas arranhadas. Chupões no pescoço, coceiras nas virilhas, mordidas no dorso da mão denunciam os outros quintais por que me aventurei: Rachel somente vê e me diz, grave, que dez dos nossos foram abatidos hoje num bairro qualquer da sagrada cidade. As outras são ninharias. Aqui se morre na mesma xícara de café, minha mulher bem sabe disso - ela me solta pra ter-me cada vez mais preso. Quarto mandamento: foder de abismo em abismo é tua salvação diária – mas lembra-te, os três abismos da mulher amada é que elevarão à glória de teu deus, um após o outro, até, trinta e três vezes três, chegarás ao conhecimento do centésimo nome de Deus. Rachel tira devagar suas roupas pesadas do pó amarelado da terra por que brigamos há centenas de anos e eu me viro na cama e abro os olhos e contemplo seus seios epicamente esféricos e me lembro no ato da pizza que fiz para ela e que agora repousa resfriadamente kasher dentro do forno de microondas. E sei então que vou ter uma comoção porque Rachel vai olhar para mim e fazer aquele sorriso por saber que cozinhei para ela e vai se voltar na direção da cozinha e eu verei suas costas magras se aproximarem, gêmeas carnes exatas como os minaretes de uma mesquita de Sarajevo, seu ventre em breve um domo dourado, e estremecerei, por me lembrar do que faremos - e por me lembrar do que faremos em seguida. Me lembrar de para o que o Fazedor nos fez. Nos comer como cães. Por todo o dia e meu cansaço e os tiroteios dez andares abaixo. Quebrar todas as correntes para chegar perto dela. Tantos cadernos que rabisquei para me manter pensando só em Rachel, e uma outra anotação faz com que o Fazedor leve minha face para o azul de nosso paraíso – somente tento ser feliz, e outro sorriso falso esboço, ah, Allah, como sei, como sinto que só o Fazedor pode fazer de mim alguém feliz, mas de vez em quando nos mordemos como cães, e nos comemos como cães. Quinto mandamento: alimenta tua mulher como uma ave a seus pássaros, como um inimigo dissolve rancor sobre as raízes das árvores secas dos teus antepassados. Qual de nossos profetas antevirá primeiro nosso fim? Os ruídos que ela agora faz na cozinha, o tridente e a lâmina, azeitadas pelo meu óleo, se batendo no meu leite, no meu trigo, nos frutos vermelhos do meu corpo – sua fome sobre minha terra nunca termina. E o fogo em meu kiff ilumina o quarto se refletindo como um fantasma amarelado no dorso da Uzi que ela abandona ao lado da bolsa onde guarda o batom, os poemas que lhe escrevo, o pouco dinheiro que nos resta, as ordens que tivemos, um lenço, um cartão postal da Sérvia, uma bala de revólver prateada com nossos nomes, um player de música, um plástico que envolve frutas secas, sua cartela de anticoncepcionais. Esse quarto está caindo aos pedaços. Nós não estamos muito melhor. Mas pelo menos somos nós mesmos que acionaremos o botão vermelho da firma de demolição. Sexto mandamento: amarás os pés inchados da tua mulher quer eles estejam acima ou abaixo de ti. E que tuas risadas lhe transbordem o cenho, lhe transtornem o senso. Eu dizia a ela que era uma judia falsa. Que descendia de ciganas judias sérvias há centenas de anos – seu porte não poderia jamais esconder. E os mosquitos comiam meus braços - os pernilongos nunca acreditam se você diz que é sangue ruim. E nós somos um povo do deserto. Nós gostamos do terror. Nada do que é humano pode nos ser indiferente. Prezamos a deserção solar, a comunhão com o fogo. Dizíamos isso antes dos romanos, e pouco depois dos babilônicos, e continuamos a repetir o mesmo, através dos séculos. Incendiar templos está em nosso sangue, tão logo criamos nossos deuses com frutas secas e miragens. Sétimo mandamento: prezai o vidro moído na salada de frutas. Rachel comia a pizza de mussarela e manjericão com o olhar tremulando na luz do meu kiff, por trás da névoa esverdeada, a corrente prateada com sua identificação dupla pendendo do pescoço, cada lado para um deus, cada aréola de seus pequenos seios um diverso planeta. E me lembrei de que ela estava grávida. Que nome daríamos para o filho? Oitavo mandamento: deixar que tua mulher te penetre com ácido e açúcar, até que tua carne rija a leve para dentro de si mesma. O cheiro da comida me lembrou que estava vivo – mas o cheiro do suor de Rachel me lembrou de como seria minha morte. Teríamos somente mais cinco horas pela frente, talvez, nós três. A última refeição seria este nosso fatiado e fatigado café da manhã, com o café que ela agora preparava, o café turco que tanto gostamos de beber antes de nos enfiar nesses lençóis enroscados como duas cascavéis, até trocarmos um de pele com outro, nossas línguas brigando e comunicando nosso fim e nosso começo. Viver longe, viver uma vida além de qualquer Messias, de qualquer Profeta ou Fazedor qualquer, um inferno nosso particular, nossos nomes na história pobre de três tribos ridículas. Nono mandamento: tudo o que amas destrói, destrói tudo para amares o nada que seja – e te lembras disso quando dançares na sala com tua mulher, a cada passo, a cada tropeço. As bombas de antraz estavam preparadas já antes do café, ali em algumas mochilas ocultas sob a cama nossa de toda manhã. Em duas horas, Hossein e David deixariam na garagem a van que nos levaria ao reservatório de água dessa cidade seca. Apago o kiff e penso que em breve não mais existirão mentiras de Jerusalém. Em breve só existirão Rachel Pillstein e Hakeem Husam al Dim… e somente os muros, os minaretes, os arames farpados, as ruas estreitas, o ar espesso e turvo de sangue. Massageio os pés de minha mulher, os aproximo de meu ventre, de minhas faces, abro minhas narinas para deixar entrar em meu corpo o cansaço que sua caminhada exala. Décimo mandamento: concordarás com tua amada no instante em que ambos forem anjos. Bebemos nosso café. Acordamos para o que há por vir… mas antes, observando atento seus maravilhosos dentes, nuvens de leite sobre mim, não posso deixar de notar que Rachel tem covinhas nos cantos dos lábios quando sorri.
– Bispo ali, ó, na terceira, você sabe onde.
– É? Tolinha. Xeque.
– Merda. Sempre me saio mal com as brancas… Tá, cavalo na quinta.
– Mate! Bom, vou dormir…
– Fica mais um pouco!
– Não, Hannah, chega! Hoje, vou sonhar. Meu trabalho…
– Ah, humanos. Como se cansam fácil…
– Fica reclamando muito dos humanos que eu escondo teu estoque de pretinhas… E aciono minha mesa e baixo uma latinha de Bonzo. Você come qualquer coisa, mesmo, sua vadiazinha.
– Grosso. Tá legal, vai dormir…
–Ah, ficou bravinha, é? Tá legal, não suporto ver mulheres chorando. Só mais uma…
Quando nasci, Hannah já estava aí. Assim como as minhas rugas. Minha face picotada em espirais – derme de melanina zero, depois do acidente –, na testa cinco fileiras de parênteses, indicando as entradas nos permeios dos cabelos brancos. Meu perfil romano que remete a um Calígula de bairro, louça rachada. Sou um médium, uma moeda, mero escravo, enfim. Tive de acreditar no que me disseram: que sou monitorado 24 horas; que meu trabalho é entregar uma predição por dia; que sou um Agente há vinte anos, e certo dia tive um acidente e perdi minha memória; e que não posso me encontrar com esse passado, se não morrerei novamente. Então, quando nasci, Hannah já estava ali. Onçando-me.
– Xeque mate.
– Você leu minha jogada nas minhas costas.
– Nada disso. Eu não trapaceio…
– Como posso ter certeza disso? Sou eu quem está presa aqui, não você.
– Eu também estou preso, esqueceu?
– Você não passa de um bunda-mole.
E escapou para trás dos sargaços do canto esquerdo do aquário, onde ficou ondulando para baixo e para cima, de leve, mas sem parar, como fazia quando estava irritada. Até mesmo tubarões-tigre hermafroditas e videntes têm necessidade de alguma privacidade. Apago o xadrez na mesa de deliverâncias modelo Psico 5 e penso no que fazer em seguida. Apesar da rotina entediante, feita de predições, conversas mentais com o grande peixe e comunicações de emergência com os outros Agentes da Divisão, sempre acho alguma coisa pra me divertir.
Do outro lado do aquário – inteiramente colado à janela deste apartamento de dois andares –, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, trêmula luz na água, como se suspensa sobre a Cidade-Olho, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões, urubus, e os assassinatos lá embaixo; seriam somente uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah.
Filmes preto e branco do século 20
Ligada às águas da Cidade-Olho, a MMM controla a memória do oxigênio e do hidrogênio – e, assim, tem acesso a seu futuro. É o triunfo da magia da Divisão. Talvez, o que nos une, quem sabe. Segundo o Evangelho do Sentido, estamos, Fabrizio Fabrizzianni e Hannah, protegidos do inferno lá fora em uma concha de cristal que vaga pelas microondas do Caos – Moby Dick e Ahab numa só embalagem. Mas é seguro aqui, e tem alguns confortos. Enquanto degusto uma lasanha aos quatro queijos que baixei do Gigetto, um restaurante que havia nas redondezas – século passado –, sempre mando uns filmes na minha Psico 5… Quando não tenho o que fazer, desço, digo, subo, aqui para o trigésimo segundo andar do meu edifício, uns filminhos recombinatórios.
Gosto muito de Casablanca, taxem-me de neobrega ou seja lá que gíria nova exista [é difícil aprender as gírias de agora, já que a Divisão me proíbe de sair e andar nas ruas, mas afinal, minha crônica fixa esse texto em um lugar determinado do tempo; e é este o meu gol, arpoar o tempo e puxá-lo para dentro do navio, expor-lhe as entranhas, fazer hambúrguer de sua carne, torná-lo tão cotidiano quanto um pão: um pão em sua mente nunca poderá apodrecer], mas adoro fazer o Rick ser obrigado a vender seu bar para traficar armas com o general Rommel de sua base no deserto da Etiópia, onde, pouco antes da derrota do Afrika Korps, quando Bogart encontraria ruínas de um templo dedicado a Rimbaud – um dos mais antigos Agentes Não-Lineares, vocês sabem –, assim como também me divirto em mandar Dooley Wilson escorrer outro chupão na prexeca da Ingrid Bergman
– Play it again, Sam.
, levar seu piano para abrir um puteiro com a ex-madame Lazlo em Casablanca, onde às sextas-feiras, à meia-noite, aquele capitão Renault finalmente soltaria a franga sob seu bigodinho para se transformar na drag queen Sodorra, uma freira que costuma fazer strip até virar uma rainha diaba, e depois ficar totalmente nu, só de tapa-sexo, no show Sodoma e Gomorra no Deserto, tudo isso ao som da Marselhesa, claro.
Pacto com o passado
De tempos em tempos, se ouve o slogan da emissora acompanhada de sua vinheta, Crossroads Radio One, uma rádio de New Orleans, aquela cidade que havia na Louisiana antes da Grande Glaciação de 2035. Mas nunca se sabia quando – não havia uma hora certa, era uma coisa totalmente aleatória, vinda de um arquivo randômico dentro da gigantesca máquina-música de uma rádio desaparecida há dezenas de anos, quando ainda se usava a internet, a estação remanescendo nas raras falas do locutor que já teria morrido, hoje rediviva em minha Psico 5. Mas percebi que, como era meia-noite, supunha-se que surgisse o tal Mestre do Caos, atrás de pactos com o Sentido, conforme eu li em um livro antigo… Daí que a música acabou e entrou a vinheta, com a voz de Robert Johnson afanhando I went down to crossroads, and I got down in my knees, o clássico dos pactários. Sim, com certeza era uma mensagem sobre algum tipo de trato.
Papel na água
Enquanto eu, Fabrizio Fabrizzianni, escrevo nessas páginas de papel, usando tinta retirada de antigos polvos, com esse péssimo estilo sem a menor personalidade literária – sou um vidente, não um escritor –, lembro-me do que li em um livro holográfico: de que em outro tempo as pessoas espiavam os diários umas das outras em uma atrasada máquina de silício. Hoje, ninguém mais fala de si mesmo, talvez porque não existam mais pessoas com uma Personalidade Única, depois do Grande Incêndio dos RGs, circa 2037… quando a Divisão dos Não-Lineares foi a única organização política que permaneceu ativa, buscando reconstruir um sentido, enviando seus Agentes para ordenar o Caos induzido pelas Personalidades Intercambiantes.
Ostranenie
Deve existir um mundo em que pessoas conversam olhando uma para a outra. Me desculpem, meu mundo é este: escrever garranchos em papéis velhos e balançar de leve pra lá e pra cá em minha rede vermelha, enquanto Hannah/Otto desliza graciosa seu corpo monstruoso nos 50 metros quadrados de água salgada sempre renovada, nossos pensamentos cruzando-se nas borbulhas que saem de suas brânquias ou no hausto que minhas narinas fremem. Talvez não seja questão de reclamar. Enquanto lá embaixo as bombas explodem e a água sobe a níveis cada vez mais terríveis, engolindo as pessoas em uma morna chuva por todos os lados, morar aqui com todas as despesas pagas é até um presente. Talvez pudesse ser como as outras pessoas do meu tempo, meus imagéticos contemporâneos que só se preocupam com seu presente já esquecido em segundos… Entanto – mesmo que elas tenham a memória delas guardada em fatos ou objetos e recordações e eu seja um cientista recém-nascido de 55 anos a que só é permitido olhar à frente de seu tempo – não as invejo.