– Bispo ali, ó, na terceira, você sabe onde.
– É? Tolinha. Xeque.
– Merda. Sempre me saio mal com as brancas… Tá, cavalo na quinta.
– Mate! Bom, vou dormir…
– Fica mais um pouco!
– Não, Hannah, chega! Hoje, vou sonhar. Meu trabalho…
– Ah, humanos. Como se cansam fácil…
– Fica reclamando muito dos humanos que eu escondo teu estoque de pretinhas… E aciono minha mesa e baixo uma latinha de Bonzo. Você come qualquer coisa, mesmo, sua vadiazinha.
– Grosso. Tá legal, vai dormir…
–Ah, ficou bravinha, é? Tá legal, não suporto ver mulheres chorando. Só mais uma…
Quando nasci, Hannah já estava aí. Assim como as minhas rugas. Minha face picotada em espirais – derme de melanina zero, depois do acidente –, na testa cinco fileiras de parênteses, indicando as entradas nos permeios dos cabelos brancos. Meu perfil romano que remete a um Calígula de bairro, louça rachada. Sou um médium, uma moeda, mero escravo, enfim. Tive de acreditar no que me disseram: que sou monitorado 24 horas; que meu trabalho é entregar uma predição por dia; que sou um Agente há vinte anos, e certo dia tive um acidente e perdi minha memória; e que não posso me encontrar com esse passado, se não morrerei novamente. Então, quando nasci, Hannah já estava ali. Onçando-me.
– Xeque mate.
– Você leu minha jogada nas minhas costas.
– Nada disso. Eu não trapaceio…
– Como posso ter certeza disso? Sou eu quem está presa aqui, não você.
– Eu também estou preso, esqueceu?
– Você não passa de um bunda-mole.
E escapou para trás dos sargaços do canto esquerdo do aquário, onde ficou ondulando para baixo e para cima, de leve, mas sem parar, como fazia quando estava irritada. Até mesmo tubarões-tigre hermafroditas e videntes têm necessidade de alguma privacidade. Apago o xadrez na mesa de deliverâncias modelo Psico 5 e penso no que fazer em seguida. Apesar da rotina entediante, feita de predições, conversas mentais com o grande peixe e comunicações de emergência com os outros Agentes da Divisão, sempre acho alguma coisa pra me divertir.
Do outro lado do aquário – inteiramente colado à janela deste apartamento de dois andares –, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, trêmula luz na água, como se suspensa sobre a Cidade-Olho, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões, urubus, e os assassinatos lá embaixo; seriam somente uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah.
Filmes preto e branco do século 20
Ligada às águas da Cidade-Olho, a MMM controla a memória do oxigênio e do hidrogênio – e, assim, tem acesso a seu futuro. É o triunfo da magia da Divisão. Talvez, o que nos une, quem sabe. Segundo o Evangelho do Sentido, estamos, Fabrizio Fabrizzianni e Hannah, protegidos do inferno lá fora em uma concha de cristal que vaga pelas microondas do Caos – Moby Dick e Ahab numa só embalagem. Mas é seguro aqui, e tem alguns confortos. Enquanto degusto uma lasanha aos quatro queijos que baixei do Gigetto, um restaurante que havia nas redondezas – século passado –, sempre mando uns filmes na minha Psico 5… Quando não tenho o que fazer, desço, digo, subo, aqui para o trigésimo segundo andar do meu edifício, uns filminhos recombinatórios.
Gosto muito de Casablanca, taxem-me de neobrega ou seja lá que gíria nova exista [é difícil aprender as gírias de agora, já que a Divisão me proíbe de sair e andar nas ruas, mas afinal, minha crônica fixa esse texto em um lugar determinado do tempo; e é este o meu gol, arpoar o tempo e puxá-lo para dentro do navio, expor-lhe as entranhas, fazer hambúrguer de sua carne, torná-lo tão cotidiano quanto um pão: um pão em sua mente nunca poderá apodrecer], mas adoro fazer o Rick ser obrigado a vender seu bar para traficar armas com o general Rommel de sua base no deserto da Etiópia, onde, pouco antes da derrota do Afrika Korps, quando Bogart encontraria ruínas de um templo dedicado a Rimbaud – um dos mais antigos Agentes Não-Lineares, vocês sabem –, assim como também me divirto em mandar Dooley Wilson escorrer outro chupão na prexeca da Ingrid Bergman
– Play it again, Sam.
, levar seu piano para abrir um puteiro com a ex-madame Lazlo em Casablanca, onde às sextas-feiras, à meia-noite, aquele capitão Renault finalmente soltaria a franga sob seu bigodinho para se transformar na drag queen Sodorra, uma freira que costuma fazer strip até virar uma rainha diaba, e depois ficar totalmente nu, só de tapa-sexo, no show Sodoma e Gomorra no Deserto, tudo isso ao som da Marselhesa, claro.
Ela se esconde por trás dos sargaços, envergonhada, ou com tesão: nunca se pode compreender os tubarões adolescentes… Algum tempo depois, também eu fico sem graça. Lembro-me de que sou um velho de quase sessenta anos, preso nesse apartamento no velho edifício Copan, na moribunda São Paulo, assistindo a filmes velhos e fazendo piadas com um tubarão enquanto tento emular as gírias de lugares onde jamais poderei ir.
Pacto com o passado
De tempos em tempos, se ouve o slogan da emissora acompanhada de sua vinheta, Crossroads Radio One, uma rádio de New Orleans, aquela cidade que havia na Louisiana antes da Grande Glaciação de 2035. Mas nunca se sabia quando – não havia uma hora certa, era uma coisa totalmente aleatória, vinda de um arquivo randômico dentro da gigantesca máquina-música de uma rádio desaparecida há dezenas de anos, quando ainda se usava a internet, a estação remanescendo nas raras falas do locutor que já teria morrido, hoje rediviva em minha Psico 5. Mas percebi que, como era meia-noite, supunha-se que surgisse o tal Mestre do Caos, atrás de pactos com o Sentido, conforme eu li em um livro antigo… Daí que a música acabou e entrou a vinheta, com a voz de Robert Johnson afanhando I went down to crossroads, and I got down in my knees, o clássico dos pactários. Sim, com certeza era uma mensagem sobre algum tipo de trato.
Hannah irrompe veloz de sob os sargaços, furiosa. Abre sua boca em um ângulo tremendo e passa a retalhar a água com sedimentos vermelhos e negros, mastigando a carne humana com suas cinco fileiras de dentes perfeitos, implacáveis. Depois que descarrego sua comida, tarefa que dura cerca de meia hora, Hannah aos poucos se satisfaz e contém seu ímpeto guloso. Aquieta-se, e então põe-se a produzir belos arabescos na água turva, lenta, docemente desenhando círculos e espirais laterais, agradecida, quase sem respirar – ela precisa nadar para respirar, lembrem – , e intuo um sorriso em sua bocarrona… sua vagina dentada.
Papel na água
Enquanto eu, Fabrizio Fabrizzianni, escrevo nessas páginas de papel, usando tinta retirada de antigos polvos, com esse péssimo estilo sem a menor personalidade literária – sou um vidente, não um escritor –, lembro-me do que li em um livro holográfico: de que em outro tempo as pessoas espiavam os diários umas das outras em uma atrasada máquina de silício. Hoje, ninguém mais fala de si mesmo, talvez porque não existam mais pessoas com uma Personalidade Única, depois do Grande Incêndio dos RGs, circa 2037… quando a Divisão dos Não-Lineares foi a única organização política que permaneceu ativa, buscando reconstruir um sentido, enviando seus Agentes para ordenar o Caos induzido pelas Personalidades Intercambiantes.
Ostranenie
Deve existir um mundo em que pessoas conversam olhando uma para a outra. Me desculpem, meu mundo é este: escrever garranchos em papéis velhos e balançar de leve pra lá e pra cá em minha rede vermelha, enquanto Hannah/Otto desliza graciosa seu corpo monstruoso nos 50 metros quadrados de água salgada sempre renovada, nossos pensamentos cruzando-se nas borbulhas que saem de suas brânquias ou no hausto que minhas narinas fremem. Talvez não seja questão de reclamar. Enquanto lá embaixo as bombas explodem e a água sobe a níveis cada vez mais terríveis, engolindo as pessoas em uma morna chuva por todos os lados, morar aqui com todas as despesas pagas é até um presente. Talvez pudesse ser como as outras pessoas do meu tempo, meus imagéticos contemporâneos que só se preocupam com seu presente já esquecido em segundos… Entanto – mesmo que elas tenham a memória delas guardada em fatos ou objetos e recordações e eu seja um cientista recém-nascido de 55 anos a que só é permitido olhar à frente de seu tempo – não as invejo.
Escrito por faker