1: Sonhariam os tubarões com pretinhas elétricas?

Janeiro 21, 2006
Nós velamos o sono da Cidade-Olho.

– Bispo ali, ó, na terceira, você sabe onde.
– É? Tolinha. Xeque.
– Merda. Sempre me saio mal com as brancas… Tá, cavalo na quinta.
– Mate! Bom, vou dormir…
– Fica mais um pouco!
– Não, Hannah, chega! Hoje, vou sonhar. Meu trabalho…
– Ah, humanos. Como se cansam fácil…
– Fica reclamando muito dos humanos que eu escondo teu estoque de pretinhas… E aciono minha mesa e baixo uma latinha de Bonzo. Você come qualquer coisa, mesmo, sua vadiazinha.
– Grosso. Tá legal, vai dormir…
–Ah, ficou bravinha, é? Tá legal, não suporto ver mulheres chorando. Só mais uma…

Quando nasci, Hannah já estava aí. Assim como as minhas rugas. Minha face picotada em espirais – derme de melanina zero, depois do acidente –, na testa cinco fileiras de parênteses, indicando as entradas nos permeios dos cabelos brancos. Meu perfil romano que remete a um Calígula de bairro, louça rachada. Sou um médium, uma moeda, mero escravo, enfim. Tive de acreditar no que me disseram: que sou monitorado 24 horas; que meu trabalho é entregar uma predição por dia; que sou um Agente há vinte anos, e certo dia tive um acidente e perdi minha memória; e que não posso me encontrar com esse passado, se não morrerei novamente. Então, quando nasci, Hannah já estava ali. Onçando-me.

– Xeque mate.
– Você leu minha jogada nas minhas costas.
– Nada disso. Eu não trapaceio…
– Como posso ter certeza disso? Sou eu quem está presa aqui, não você.
– Eu também estou preso, esqueceu?
– Você não passa de um bunda-mole.

E escapou para trás dos sargaços do canto esquerdo do aquário, onde ficou ondulando para baixo e para cima, de leve, mas sem parar, como fazia quando estava irritada. Até mesmo tubarões-tigre hermafroditas e videntes têm necessidade de alguma privacidade. Apago o xadrez na mesa de deliverâncias modelo Psico 5 e penso no que fazer em seguida. Apesar da rotina entediante, feita de predições, conversas mentais com o grande peixe e comunicações de emergência com os outros Agentes da Divisão, sempre acho alguma coisa pra me divertir.
Do outro lado do aquário – inteiramente colado à janela deste apartamento de dois andares –, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, trêmula luz na água, como se suspensa sobre a Cidade-Olho, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões, urubus, e os assassinatos lá embaixo; seriam somente uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah.

O tubarão-tigre que é a emanação da Mnemomáquina.

Filmes preto e branco do século 20
Ligada às águas da Cidade-Olho, a MMM controla a memória do oxigênio e do hidrogênio – e, assim, tem acesso a seu futuro. É o triunfo da magia da Divisão. Talvez, o que nos une, quem sabe. Segundo o Evangelho do Sentido, estamos, Fabrizio Fabrizzianni e Hannah, protegidos do inferno lá fora em uma concha de cristal que vaga pelas microondas do Caos – Moby Dick e Ahab numa só embalagem. Mas é seguro aqui, e tem alguns confortos. Enquanto degusto uma lasanha aos quatro queijos que baixei do Gigetto, um restaurante que havia nas redondezas – século passado –, sempre mando uns filmes na minha Psico 5… Quando não tenho o que fazer, desço, digo, subo, aqui para o trigésimo segundo andar do meu edifício, uns filminhos recombinatórios.
Gosto muito de Casablanca, taxem-me de neobrega ou seja lá que gíria nova exista [é difícil aprender as gírias de agora, já que a Divisão me proíbe de sair e andar nas ruas, mas afinal, minha crônica fixa esse texto em um lugar determinado do tempo; e é este o meu gol, arpoar o tempo e puxá-lo para dentro do navio, expor-lhe as entranhas, fazer hambúrguer de sua carne, torná-lo tão cotidiano quanto um pão: um pão em sua mente nunca poderá apodrecer], mas adoro fazer o Rick ser obrigado a vender seu bar para traficar armas com o general Rommel de sua base no deserto da Etiópia, onde, pouco antes da derrota do Afrika Korps, quando Bogart encontraria ruínas de um templo dedicado a Rimbaud – um dos mais antigos Agentes Não-Lineares, vocês sabem –, assim como também me divirto em mandar Dooley Wilson escorrer outro chupão na prexeca da Ingrid Bergman

– Play it again, Sam.

, levar seu piano para abrir um puteiro com a ex-madame Lazlo em Casablanca, onde às sextas-feiras, à meia-noite, aquele capitão Renault finalmente soltaria a franga sob seu bigodinho para se transformar na drag queen Sodorra, uma freira que costuma fazer strip até virar uma rainha diaba, e depois ficar totalmente nu, só de tapa-sexo, no show Sodoma e Gomorra no Deserto, tudo isso ao som da Marselhesa, claro.

Depois que escrevo isso, me vejo olhando fixo para o sexo de Hannah.
Esse clasper não combina com ela. Os diretores da Divisão deveriam ter lido mais sobre mitologia grega e simplesmente batizado o tubarão com o nome de Tirésias, pra que o bicho se conformasse com sua ambigüidade… Assim, quando quero irritar Hannah, lembro de seu duplo clitóris gigante, e a chamo de Otto. Ela fica puta. Mas pensem bem, se estamos só eu e esse tubarão andrógino nesse aquário, quem mais eu poderia encher o saco?
– Vá brincar com suas barbataninhas pélvicas – sussurro pra ela. – Se não, vou morder você toda, arrancar pedaços de suas malhas e lambuzar você com gel de plâncton tailandês transgênico que os albaneses lá embaixo vendem nos mercados negros, sua menininha suja…
Ela se esconde por trás dos sargaços, envergonhada, ou com tesão: nunca se pode compreender os tubarões adolescentes… Algum tempo depois, também eu fico sem graça. Lembro-me de que sou um velho de quase sessenta anos, preso nesse apartamento no velho edifício Copan, na moribunda São Paulo, assistindo a filmes velhos e fazendo piadas com um tubarão enquanto tento emular as gírias de lugares onde jamais poderei ir.
Enquanto escrevo isso, vem uma tristeza e resolvo apelar para uma rádio que toca velhos blues. Vocês sabem: aquele tipo de música que se ouvia muito na primeira metade do século passado.
E aconteceu uma coisa estranha.

Pacto com o passado
De tempos em tempos, se ouve o slogan da emissora acompanhada de sua vinheta, Crossroads Radio One, uma rádio de New Orleans, aquela cidade que havia na Louisiana antes da Grande Glaciação de 2035. Mas nunca se sabia quando – não havia uma hora certa, era uma coisa totalmente aleatória, vinda de um arquivo randômico dentro da gigantesca máquina-música de uma rádio desaparecida há dezenas de anos, quando ainda se usava a internet, a estação remanescendo nas raras falas do locutor que já teria morrido, hoje rediviva em minha Psico 5. Mas percebi que, como era meia-noite, supunha-se que surgisse o tal Mestre do Caos, atrás de pactos com o Sentido, conforme eu li em um livro antigo… Daí que a música acabou e entrou a vinheta, com a voz de Robert Johnson afanhando I went down to crossroads, and I got down in my knees, o clássico dos pactários. Sim, com certeza era uma mensagem sobre algum tipo de trato.

No entanto, no que vi as horas no relógio, já eram duas e quinze. Não consigo me lembrar absolutamente do que aconteceu nesse meio tempo.
Daí decidi escrever. Pra me acalmar. Ou virar logo tudo em nervo.
Ainda me recuperando desse susto, sem saber o que fazer – não escrevo faz décadas, minhas mãos duras ficaram tanto tempo em um hospital, fechadas, enquanto me recuperava do coma – , aproveito para baixar a ração de Hannah/Otto na mesa. Está cada vez mais exigente: deu para só comer garotinhas Coisas pretas de sete anos de idade, catadas ali mesmo debaixo, do tanque da Praça da República. Tenho de controlar seu apetite, porque ela não pode crescer mais que seus dois metros e meio. O problema não é caber no aquário – era não conseguir mais dar seus piques de 100 km/h de um extremo ao outro do aquário de 50 m2. Afinal, peixes costumam comer até explodir, e, até onde eu sei, apesar de tudo esse monstro aí ainda é um peixe. Levo o embrulho de garotinhas já fatiadas aos poucos, dois quilos por vez, o que não deixa de ser uma forma de me exercitar; rasgo o saco com um grande punhal marinho – artesania que usou um dente de tubarão-branco –, e o deposito na mesa imersora, que desce e penetra no aquário.
Hannah irrompe veloz de sob os sargaços, furiosa. Abre sua boca em um ângulo tremendo e passa a retalhar a água com sedimentos vermelhos e negros, mastigando a carne humana com suas cinco fileiras de dentes perfeitos, implacáveis. Depois que descarrego sua comida, tarefa que dura cerca de meia hora, Hannah aos poucos se satisfaz e contém seu ímpeto guloso. Aquieta-se, e então põe-se a produzir belos arabescos na água turva, lenta, docemente desenhando círculos e espirais laterais, agradecida, quase sem respirar – ela precisa nadar para respirar, lembrem – , e intuo um sorriso em sua bocarrona… sua vagina dentada.

Papel na água
Enquanto eu, Fabrizio Fabrizzianni, escrevo nessas páginas de papel, usando tinta retirada de antigos polvos, com esse péssimo estilo sem a menor personalidade literária – sou um vidente, não um escritor –, lembro-me do que li em um livro holográfico: de que em outro tempo as pessoas espiavam os diários umas das outras em uma atrasada máquina de silício. Hoje, ninguém mais fala de si mesmo, talvez porque não existam mais pessoas com uma Personalidade Única, depois do Grande Incêndio dos RGs, circa 2037… quando a Divisão dos Não-Lineares foi a única organização política que permaneceu ativa, buscando reconstruir um sentido, enviando seus Agentes para ordenar o Caos induzido pelas Personalidades Intercambiantes.

Meu trabalho consiste nisso: enviar mensagens que leio no futuro aos Agentes do passado, para, quem sabe, melhorar esse presente absurdo em que vivemos hoje, 2055. Então, fico sempre espionando à frente para advertir o porvir – mas meu presente mesmo, este em que vivo, não passa de um deserto marinho, tudo o que posso contar às pessoas que virão depois de mim, depois que meu trabalho terminar e, finalmente, eu puder descansar entre céu e sal…
O mais estranho é que resolvi relatar essas coisas para vocês – mas não consigo ver esses meus papéis no futuro. Não consigo enxergar as anotações – quando tuno esse pensamento, o oráculo só me responde com ondas tranqüilas, o mar aberto, imenso azul: é como se o tubarão tigre se tornasse cristal… Então tenho medo que Hannah/Otto, minha única companhia, tenha desaparecido, aí: mas, subitamente, quando esse medo me eriça os pêlos sob o pijama, meus olhos retomam o vulto cor de Jack Daniel’s do grande peixe, e ela como que dá uma gingada para o lado –, e, não tivesse pálpebras, poderia dizer com certeza que me deu uma safada piscadinha.
Já tentei, outro dia, no Momento, às cinco da tarde, o sol caindo ao meu nordeste e invadindo meu largo apartamento de reflexos amarelos, alaranjados, lilases – e meus olhos tuniriam no Rubi. É neste segundo em que minha mente é acionada pela MMM, o instante em que Fabrizio e Hannah, olho e luz, se tornam um só Oráculo: nos saltos de Hannah, precisamente às cinco da tarde, quando os raios do sol se pondo através das camadas de poeira e grãos de fuligem da inversão térmica de inverno e o vidro blindado e as águas se refletindo nas guelras de Hannah, nas malhas de Hannah, no dorso de Hannah, em cada uma de suas nadadeiras de cartilagem, onde quer que o sol lambesse seu dorso macio, meus olhos também a lamberiam, a perscrutariam sanguessugas, meus nervos à flor de sua pele, e a cada intervalo entre branco, negro e amarelo-ouro, eu a tunisse uma letra, um caractere, um rascunho de símbolo da escrita do Sentido, e afinal lesse na carne de Hannah o que está escrito desde que a Cidade-Olho foi fundada – até seu afundamento.
Tentei tunir meus próprios escritos no futuro, nas malhas translúcidas do tubarão, em esgares e estrias entre negro e dourado. Mas nada vi.

Ostranenie
Deve existir um mundo em que pessoas conversam olhando uma para a outra. Me desculpem, meu mundo é este: escrever garranchos em papéis velhos e balançar de leve pra lá e pra cá em minha rede vermelha, enquanto Hannah/Otto desliza graciosa seu corpo monstruoso nos 50 metros quadrados de água salgada sempre renovada, nossos pensamentos cruzando-se nas borbulhas que saem de suas brânquias ou no hausto que minhas narinas fremem. Talvez não seja questão de reclamar. Enquanto lá embaixo as bombas explodem e a água sobe a níveis cada vez mais terríveis, engolindo as pessoas em uma morna chuva por todos os lados, morar aqui com todas as despesas pagas é até um presente. Talvez pudesse ser como as outras pessoas do meu tempo, meus imagéticos contemporâneos que só se preocupam com seu presente já esquecido em segundos… Entanto – mesmo que elas tenham a memória delas guardada em fatos ou objetos e recordações e eu seja um cientista recém-nascido de 55 anos a que só é permitido olhar à frente de seu tempo – não as invejo.

O que vejo não é perfeito. Mas é meu.
Tem uma coisa que me preocupa. Às vezes, Otto/Hannah sonha. E quem sonha vê o passado. Um dia, quando estiver lendo nas malhas do dorso tigrado do tubarão que sonha o futuro da Cidade-Olho, poderei ver talvez ali aquele que fui um dia. Por isso tento sonhar, para sonhar com o tubarão que sonha, e divisar, afinal, meu passado em seu corpo. Então verei meu retrato. É só uma suposição, mas não me canso de tentar alcançar a pérola do meu tempo perdido.
Uma ostra ninando sua pérola. O sonho seria isso, um círculo perfeito, calcáreo… E por trás de tudo as luzes da cidade se apagam, diamantes desfeitos no açúcar ou no câncer… A pérola é aperfeiçoada pela morte demorada e torturante da ostra, a “morte lenta” dos antigos mafiosos sicilianos: uma bala no cu. Quando uma partícula de areia ou sujeira entra na casca da ostra, se agarra lá dentro, trazendo muita dor. Nesse processo a ostra solta uma secreção que se forma sobre a ferida, o que vai a enfraquecendo e fazendo com que ela produza ainda mais secreção calcárea – aí, a pérola. Ela tem essa cor branca azulada pois é formada de camadas, dores sobre dores… Mas só é conseguida pela morte da ostra.
A memória se auto-caleja. Assim é que, quando nossa memória se torna uma pérola, nós morremos.
Do outro lado do aquário, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, como se suspensa sobre a cidade, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões e urubus e os assassinatos lá embaixo – seriam só uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah. De modo que decido pedir outra lasanha. O tubarão me olha. Sinto que quer mais uma partida. Desta vez, vou deixá-la jogar com as pretas.
Daqui a uma hora, o sol se põe. E virá um novo Momento. Meu trabalho me espera.