Deus. Deus danou-me. Danou-me. Danou-se. Get uppa. Me jogou nesse mundo embalado num saco de lixo e folhas de um diário do ano anterior. Tive que cortar caminho na porrada. Nasci num 29 de fevereiro. You got to have the feeling sure as you’re born. Era Mardi Gras em New Orleans. Na lama seca do sertão que tinha virado o Bairro Francês. Batizado com barro vermelho no cocuruto por um pai-de-santo que me chamava de macaco bundão porque tenho o cu grande e pretopeludo. O resto é tudo branco. O que inclui minhas bastas suíças. E meus bem-cuidados dreadlocks. Lembrava disso estupidamente aquela tarde em Buenos Aires. Estava ali na agência do WB$. Pensando num golpe pra aplacar a sede e a fome por malaguetas y uvas syrah y ojos de bife de mi amada hostess Anjelika Zapata. Eu estava ali parado. Stay on the scene. Parado na encolha medindo um velho americano de agasalho esportivo movimentar sua conta bancária no caixa biônico. Parecia que tinha problemas em autenticar a senha. Tentou a via salivar. Introduziu na fenda um filete fino e esverdeado, envolto em bolhas de ar. Rios de suor na testa cheia de parênteses arruinados. You give me the fever ‘n’ a cold sweat. O caixa parecia não ter sacado o lance. Ele ficou puto. Get uppa. Soltou na escarra-senha outro cuspe. Mais outro. E então um guspo meio sanguinolento. Começou a cavoucar dentro o ranho. Arrancou das catacumbas das vias aéreas um catarro grosso. Son of a bitch. Son of a bitch. Ele grunhia. Bloodyhound from hell. Show yourself. My money motherfucker of God. Conjurava e cuspia. Então se lembrou de tentar a digito-senha. Me dê um hang five. Me dê um hang ten na tela. Um soco na bicha. Get uppa. Dirty nigger son of a bitch. Smelly pussy of a damned cow. By all my fuckin nuggets. Eu só na miúda na esguelha. Stay on the scene. Parou. Lembrou-se súbito da gaso-senha. Last chance to dance trance. Virou-se, suspendeu a bunda, se arrebitou, fechou os olhos. Yeah. Shake your moneymaker. Concentrou. What about that you screwed jew. Kiss my ass yo motherfucker. Mandou uma bufa. Deu pra sacar que era um peido molhado. Uma mancha na calça bege de tergal. Nada. Aí o véio cagão se emputeceu de verdade. Get uppa. Voltou babando, os olhos cinzentos pulando dos furos da cara. Abaixou a calça. A máquina ia ler a sua porra? Essa eu queria ver. Vasculhou lá nos confins de sua cueca um pau engelhado do tamanho de uma unha. Deu um soluço fundo. Pensei que ia implodir. Começou a mandar uma punhetinha. Necas. Então a cabeça avermelhada toda. Zoou. Escancarou o bocão e mandou um vômito. Um jato amarelo como nata ordenhada de uma jumenta. Tão fedorento a pus e a merda e a patê de foie gras sintetizado que me enjoou todo. Não fico mareado fácil. Sou do Bairro Francês de New Orleans. Vim de onde já não mais existe. Get uppa. A máquina não decriptografou o vomitão do meu compatriota. Fazia tempo que não via ninguém do meu país. Por isso lembrava da América. Nesse velho cagado, escarrado e vomitado em busca de sua grana. Minha pátria não tem fim. Get on up. Vai demorar séculos pra exterminar nossa raça desgraçada. A máquina disparou a apitar. Deu dez segundos. Do nada surgiram dois milicos de preto, a faixa branca atravessada no peito. Lhe deram um sossega-leão com um phaser paralisante. Right on. Right on. Um deles enfiou um idecodificador nos olhos. Plugou dentro dos ouvidos duas sondas metálicas do old papa. Arrancou a língua branca da sua boca. Prendeu ele todo num megaclipes. Os ralos cabelos do gringo se arrupiaram feito neve ao contrário. Get on up. O milico leu o nome do doidão num palm. Bradou alto e monótono pra ele. Ustedes es Josef Smith. Tu conta esta cancelada. Vos no hé pagado los derechos por su identidad. Ella ahora está en poder de el Instituto Tierra de Nunca. Ustedes hé perdido tus derechos economicos. Tu tienes derecho a calarte e llamar tu avogado o qualquiera que prentenda socorrerte. Pero tienes dós horas hasta el tribunal. Hablo de nuevo. Josef Smith. Fodió. Ustedes hé perdido tus derechos economicos. Te levarán a julgado en el Territorio de los Cosos. Distrito de Buenos Aires. Virou maneiro e mandou pro outro. Bobby. Should I take ‘em to the bridge? Go ahead. Respondeu o outro. Take ‘em on to the bridge. Should I take ‘em to the bridge? O milico bonzinho inquiria o colega. Yeah. Take ‘em to the bridge. Pedia o outro. O velho uivava. Pedia. Go ahead. Hit me now! E oferecia a bunda cagada. Don’t take me to the bridge. Batia nas próprias costas. No. No. Never a Thingo. Never a Thingo. Please. Mercy. O Lord. Get on up. Naquela taquara rachada que era sua garganta me lembrei dos blues fudidos de minha cidade. Me deu um treco. Get uppa. Eram só dois guardas. Dei um murro simples com a mão fechada no cocuruto do que apontava o phaser. Ele desabou no chão feito um ovo mexido. Quando o outro virou pra mim dei uma carga bem na boca dele. Cretinos administrados. Cretinos a soldo. Cretinos ciosos. Cretinos biônicos. Cretinos da rotina. Butthole Kongo os libertará de todo o mal. Right on. Right on. Fucei no cinto do milico caído. Fiz-lhe o laser. O do colega também. O velho me olhava fixo. Eu disse. Hey man, whassup. One, two, three, four. Talvez nunca tenha visto um gorila albino na vida. Talvez nunca tenha ficado sem dinheiro. Talvez nunca tivesse visto um compatriota em Buenos Aires. Talvez estivesse agradecido. Certamente ia me foder na primeira chance. Aos poucos um sorriso de entes amarelados lhe roía a fuça. Nojo. Nojo da gratidão. Da pena. Da comiseração. Da perda. Do puxasaquismo. Do perdão. Get uppa. Get on up. De um só golpe com o laser arranquei sua cabeça. Que fui esmigalhando e enfiando aos pedacinhos na escarra-senha. Na via das dívidas. Por via das dúvidas cortei no meio os outros dois com o feixe verde da arma. Laser bom pracaray. Esfreguei as línguas dos milicos no caixa. E lhes afanei os sagrados soldos da Milícias Amigas Unidas. 500 contos livres. Stay on the scene. Butthole Kongo. Like a sex machine. Armado e com dinheiro. O Lord. Os venenos do mundo ainda não conhecem teu antídoto. We got to get it together. Um dia em que você corta três cabeças é um dia ganho. Minha Anjelika vai ganhar um jantar hoje. Butthole Kongo. Nascido do barro de New Orleans. Curto e grosso. Lutando pelo seu. O macaco do desbloqueio. O campeão das suas economias. O homem em síntese de banana. Quem dá aos pobres empresta a Deus.The way I like it. Is the way it is.
Escrito por faker