Sumiu. Sumiu, ejo sumiu…
Who sumiu?
Sandiliche…
How tipo, Sandiliche sumiu, ou nem?
Sumiu, ejo away… Pegaram ejo…
Who levaram?
Os do ladolá… Trangers… Milícios… lo sé no manita…
How tipo?
Tinha unos panos black… a faixa tipo lo peito…
When, when?
No lo sé, jo todavia tava travesseiro…
Hum, então viu how?
Lo sonho…
Bela suspirou e olhou por trás do irmãozinho funguento para o rio de brancos copinhos de plástico. Ali onde estavam, o estuário havia trazido uma geléia de isopores, garrafas PET, mijo de pilha, latas de alumínio amassadas, ferros retorcidos sob uma nuvem de sacolas de plástico de supermercado que voavam em redemoinho ali, exatamente ali. Para aquele afluente do Tietê eram desviados os metais, os isopores e os plásticos, que receberiam, alguns quilômetros abaixo, tratamento de uma usina de reciclagem. Entretanto, por algum motivo, ali naquela curva do rio sujo somente copos de plástico boiavam acima do curso do lixo, em camadas e mais camadas de cores que iam do marrom cocô ao branco gelo, de baixo para cima – volumes tão grandes que às vezes no meio do curso pequenas ilhas somente de copos se formavam. Numa noite, numa dessas ilhas, a uns duzentos metros do barraco, encontrou o irmão nu, os olhos azuis demais luminosos. Teve de resgatá-lo com um barco do dono do Lixão, escondida – se o dono visse, babau. Quando o tirou de lá, ele explicou que havia chegado à ilhota conversando com seu amigo Sandiliche, e que o amigo tinha saído pra comprar um picolé. Pero ejo num volveu, tremia ele no frio da noite lilás. Nunca soube como Luki tinha conseguido escapar das correntes e chegar tão longe.
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Who sumiu?
Sandiliche…
How tipo, Sandiliche sumiu, ou nem?
Sumiu, ejo away… Pegaram ejo…
Who levaram?
Os do ladolá… Trangers… Milícios… lo sé no manita…
How tipo?
Tinha unos panos black… a faixa tipo lo peito…
When, when?
No lo sé, jo todavia tava travesseiro…
Hum, então viu how?
Lo sonho…
Bela suspirou e olhou por trás do irmãozinho funguento para o rio de brancos copinhos de plástico. Ali onde estavam, o estuário havia trazido uma geléia de isopores, garrafas PET, mijo de pilha, latas de alumínio amassadas, ferros retorcidos sob uma nuvem de sacolas de plástico de supermercado que voavam em redemoinho ali, exatamente ali. Para aquele afluente do Tietê eram desviados os metais, os isopores e os plásticos, que receberiam, alguns quilômetros abaixo, tratamento de uma usina de reciclagem. Entretanto, por algum motivo, ali naquela curva do rio sujo somente copos de plástico boiavam acima do curso do lixo, em camadas e mais camadas de cores que iam do marrom cocô ao branco gelo, de baixo para cima – volumes tão grandes que às vezes no meio do curso pequenas ilhas somente de copos se formavam. Numa noite, numa dessas ilhas, a uns duzentos metros do barraco, encontrou o irmão nu, os olhos azuis demais luminosos. Teve de resgatá-lo com um barco do dono do Lixão, escondida – se o dono visse, babau. Quando o tirou de lá, ele explicou que havia chegado à ilhota conversando com seu amigo Sandiliche, e que o amigo tinha saído pra comprar um picolé. Pero ejo num volveu, tremia ele no frio da noite lilás. Nunca soube como Luki tinha conseguido escapar das correntes e chegar tão longe.
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Desta vez, parecia que realmente Sandiliche havia ido embora. Melhor assim. Bela não suportava mais as histórias que Luki contava tendo Sandiliche como protagonista. Ele tinha cinco anos, poxa, estava na hora de parar com isso. O sol mal havia nascido, tornando sua casa de teto de zinco um forno – fincada em uma palafita há cinco anos, um metro acima do esgoto semovente, a casa era um barraco de dez metros quadrados, varanda, sala/cozinha e banheiro. Um luxo para somente duas pessoas. Como trabalhava na usina sanitária, o casal de irmãos não era incomodado. Daqui a pouco ela teria que sair pra pegar no pesado na usina subsidiária da Companhia das Águas Ocidentais. Estava morrendo de sono, e de manhã sempre gostava de tirar alguns minutos contemplando a maré-balé de copos de plástico – como se o dorso de uma grande baleia cuja pele coalhada de cilindros… Ver o dorso de baleia a acalmava; era um jeito de sentir que seu trabalho até poderia ser bonito, sua vida até que tinha uns segredos belos… ser um Coiso não seria afinal assim tão ruim. Só que Luki tinha acordado mais cedo que devia e perturbava sua meditação matutina. Levantou-se, fez uma carícia impessoal no cabelo louro do irmão resmungante e foi pro fogo aquecer uma gororoba pro desjejum. Tinha achado no lixão umas latas de leite em pó, não aquele de azarato, horrível, esverdeado. Mas logo iriam acabar. Misturou o leite com um troço vagamente parecido com chocolate, meteu no microondas, em cinco minutos estavam bebendo e mascando farelos de farinha, a espiar o estuário feito dois milionários e seus drinques à beira de sua piscina azul – uma piscina, haveria mesmo piscinas no mundo, como ela havia visto as imagens? Ela estendeu o braço e apertou o ombro de Luki que ainda sofria com a perda de seu amigo, puxou-o, brusca, numa desafinada carícia. Os dois irmãos juntos, os dois únicos habitantes daquela minúscula e esquecida parte do mundo, daquela solitária casa de papelão, tijolos, chapas de alumínio e zinco naquela sortuda ilhota do estuário dos copos de plástico duzentos quilômetros a nordeste do centro da Cidade-Olho – onde as coisas começavam, enfim, a ficar um pouco secas.
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How lo sonho?
Hum, teve barulhão, bum! E los trangers volando e…
Explosión?
Hã hã, e ejo caiu chão, tum, bateu cabeza…
Machucou?
Drumiu… daí los milícios el lo comedor…
Era lo comedor, sô?
Era… ejo bebia sopão…
Tava solo, ou nem?
Num, tinha o bróder, ejo iu, ficou solo aí… de entón, bum!
E tu?
Fora, fora jo… solo vendo…
E después la explosion?
Num, aí jo travessero de nuevo…
Hum, teve barulhão, bum! E los trangers volando e…
Explosión?
Hã hã, e ejo caiu chão, tum, bateu cabeza…
Machucou?
Drumiu… daí los milícios el lo comedor…
Era lo comedor, sô?
Era… ejo bebia sopão…
Tava solo, ou nem?
Num, tinha o bróder, ejo iu, ficou solo aí… de entón, bum!
E tu?
Fora, fora jo… solo vendo…
E después la explosion?
Num, aí jo travessero de nuevo…
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Bela suspirou outra vez e puxou para trás os dreadlocks esverdeados, amarrando-os num rabo-de-cavalo que parecia uma cachoeira de mandacarus. Sentia que já acordava exausta. E com aquela dor esquisita no útero.
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Bela suspirou outra vez e puxou para trás os dreadlocks esverdeados, amarrando-os num rabo-de-cavalo que parecia uma cachoeira de mandacarus. Sentia que já acordava exausta. E com aquela dor esquisita no útero.
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Bueno, manito, entón se acabou Sandiliche, vida tipo, vida tipo todo bien.
Num, manita… tem que achar…
Achar who?
Sandiliche, ejo malo, ejo machucado… los trangers cataro ejo…
Si si, mismo, Luki. Pero no agora, sente? Manita tem que trabalhar. Tu acá, tu acá, todo bien?
Num, quero ir tu com…
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Num, manita… tem que achar…
Achar who?
Sandiliche, ejo malo, ejo machucado… los trangers cataro ejo…
Si si, mismo, Luki. Pero no agora, sente? Manita tem que trabalhar. Tu acá, tu acá, todo bien?
Num, quero ir tu com…
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Lágrimas vazaram dos olhos azuis de Luki. Passou um pensamento nublado pela mente da irmã, um azaraton branco, mas foi um segundo só, e logo ela o espantou para catar a rotina nas unhas. Bela pegou a corrente de aço, passou o elo pelo pulso esquerdo do irmão. A corrente tinha uns dez metros: o perímetro da liberdade do pequeno de cinco anos. Pelo menos por enquanto – ano que vem já iria com ela para a usina, separar lixo, organizar, administrar, trabalhar. Beijou-o na testa.
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Num pode, fica acá. Manita traz los gostosos de la noche, espera. Sandiliche todavia volta, volve… voy…
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Enquanto desamarrava a pequena lancha de um dos troncos que sustentava sua palafita particular, ainda ouvia os muchochos do garoto. Mergulhou os pulmões no ar de mercúrio e chumbo e plástico, ligou o motor de popa do velho barco e partiu, acenando.
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Num pode, fica acá. Manita traz los gostosos de la noche, espera. Sandiliche todavia volta, volve… voy…
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Enquanto desamarrava a pequena lancha de um dos troncos que sustentava sua palafita particular, ainda ouvia os muchochos do garoto. Mergulhou os pulmões no ar de mercúrio e chumbo e plástico, ligou o motor de popa do velho barco e partiu, acenando.
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Na janela, Luki espiava a irmã afastar-se no longe dos copinhos de plástico. Unhou de leve a grossa algema no pulso, ela foi esquentando, esquentando, amolecendo… Aí, clic, se abrió.