22 : No Vale de Zuma

Abril 18, 2006
Deus é noise é noise é noise. Barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau. Os biciclopes, as dildodeidades, os homocangurus, meus irmãos em falta de armas, levantem-se. Tem que ter cor, tem que ter coragem, porque quem tem cor, age. Eu sou a soma de todas. Ou a ausência de nenhuma. A lua senão reflexo é. Anões sem braços – os bibelomilos –, as sereias gostosíssimas e tortas chamadas supermancas, e os tecnocentauros, possantes cadeirantes sem mais dinheiro pra comprar óleo para suas engrenagens. Aqui no vale da Zuma todos são zumbis a buscar a lua cheia para romper o plexo solar com a lâmina lavrada no batuque. Caçam sua passagem em Zuma, o vale do último gesto. Aqui ninguém mais agüenta a hora morta do mundo escuro. As gurias azuis com lixa na buceta, os homens-catracas descartados pelas últimas companhias de transportes coletivos, as anciãs-esteiras despedidas dos obsoletos supermercados. Aqui, agora, se pacta a autosabotagem, a vingança mútua, o rito das mônadas que não deram certo, a brodagem no vacilo – tudo na crocodilagem genérica. Sob o noise o noise o noise dos tambores unvulados dos Vovôs Coisos. Os que ficaram à margem, roendo o próprio osso. Meus irmãos em lapsos de DNA, os inventos que ninguém mais quis, nascidos em baias, por trás de vitrais, dentro de tubos de ensaio, a gênese ali no íntimo do asséptico de cada laboratório ou boca-de-porco genética do Estado da Transição. Meus irmãos, as mulheres lacraias, os homens aquosos, as mademoiselles mengele – com um implante neural no rabo, falam diversas línguas com a bunda. Um tesouro de genes recessivos, uma barragem que não se sabe fluxo nem nexo. Prontos para o meu veneno. Sim, foram dilapidados de credo – mas não de medo. Medo não tem segredo. Única força ganha na rapinagem. A crocodilagem é geral entre irmãos que não se reconhecem o sangue. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O vale do último gesto, berço da minha experiência. Campo de dispersão de energia, fuleiragem sem folia, a dança das carcaças ensaia seus passos na clareira aberta por meteoros. Lepra, varíola, aids, câncer e fogo selvagem. Uma usina de extertores. Zuma. Ouve-se por quilômetros o roar dos Coisos que se suicidam. É noise é noise é noise. Tudo aqui nasce sem longitude nem latitude. Um ímã de nada. Um casal de cada ímpar fode-se e se crava a lâmina no peito. Um do outro, zero a zero. Amor, enfim essa arca inversa. Enquanto se fodem e se fodem, eu preparo o difusor da Palavra. Um nome pra droga como outro qualquer. Um grave formado por batidas de crânios contra peles de ex-humanos. Zuma é o vale do último gesto. O que cria o homem. O que cria um novo homem. E é esse gorila albino que vem lhes trazer o conforto. Serei vosso Messias, vós que perdestes o sangue. Que nem pensariam em honra. Aqui não há tempo para árvores secas ou dramas de falas. Onomatopéia aqui é luxo. Mesmo os cegos escoam luz pelos olhos. Quatro ruas levam ao círculo onde se recolhe o sangue dos mártires de laboratório. Aos poucos, forma-se um lago nos Quatro Cantos de Zuma aqui onde era antes uma encosto do Morro da Conceição, perto do antigo Alto Zé do Pinho. Aqui em Recífilis. Um poço suga a doença e a leva para o mar. É a crença. É para lá que desço, carregando minha mochila de sacanagens. Não prender a passagem, essa a rima. É noise é noise é noise. Há cinco anos eles aqui chegam pra morrer. Mas de hoje em diante o sangue correrá de volta a suas veias. O homem só se conhece na destruição. Verto o veneno sagrado na vala de todos os sangues. A Palavra chegará aos vossos corações, mas falará em um dialeto que desconheço. Não há tradutor para o medo. Noise é noise é noise. Cascatas de ruído branco, a cor da coragem. Os Coisos se levantarão ás cinco e meia da madrugada. Uma única estrela sobre as escarpas das quatro montanhas que velam o Vale de Zuma. O rio subterrâneo que flui da lua para o mar. A Palavra se ligará em todos os fluxos, lava gelada. Meu trabalho é lento e continuado, não tem descanso. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O raio da prata sobre esses subumanos de lata. O poço reflete rubros meus olhos, a lua. Uma nuvem. Mergulho. Logo caminharei sobre as águas. Butthole Kongo. Um mensageiro. Ouço as novas vozes dos Coisos, meus filhos. E sumo.

21 : Como amar uma soldada judia em 2027

Abril 4, 2006
Rachel entra em casa silenciosa. Ela pensa que não. Mas eu sempre acordo quando minha mulher chega. Eu finjo. Fingir é nosso método, é o que nos une sob mesmo e outro uniforme. São seis da manhã. Ainda escuro. Quente já. Passei a noite toda escrevendo. Imaginando-a na sentinela, meus pensamentos perseguindo os anéis da fumaça do seu vigésimo cigarro. A Uzi feito um cão sobre seus pés dormentes no frio dos coturnos, o metro por metro que lhe adelgaça e espessa os músculos, a janela que é penteadeira para a sua vaidade insular – as rajadas, a música da caixinha em que ela, bailarina, ensaiaria seus passos de ganso. Esta noite passei escrevendo poemas sobre meu deus, meu paraíso, meu inferno, sobre a ponte que separa os dois abismos e os túneis de Rachel. Nós indissociáveis de minhas fibras. Eu sinto o odor de seu uniforme e a ouço riscar os fósforos para o penúltimo cigarro do dia – sempre fuma um antes do café, e outro antes de dormir, pouco antes de sua língua nitotinada vir brincar comigo. Primeiro mandamento: escova mil vezes os ruivos cabelos de tua amada tão logo ela entre em casa. Poemas sobre o muro que nos habita, sobre os cabelos que crescem dentro do coração e sobre o cheiro forte que as dobras judias de Rachel deixam em minhas digitais turvando-me os olhos sobre os caracteres que desenho de trás para a frente, de baixo para cima, sempre para cima – minha escrita ascende aos céus incorporando-se ao fumo do meu haxixe. E sinto as solas dos coturnos que avançam mornos e sujos sobre meu peito, marcando-me com chicletes, cigarros e os mijos das cascavéis da tríplice fronteira. Faz tempo que não chove nessa maldita cidade. Aqui só bombas. E o pior é que gosto disso. Segundo mandamento: conhece a densidade, o aroma e a cor da graxa dos sapatos da tua mulher como sabes da sombra de teus líquidos mais interiores. Escuto Rachel ligar o filtro de água, escuto as bolhas de ar em seu copo, escuto a água descendo por sua garganta – bebemos a mesma água já faz uns anos. Isso não pode continuar. Em breve, minha prima e amada Rachel vai perder seu emprego por mim, eu, o poeta barbudo oculto debaixo de sua cama, aquele que só vive à noite. O nariz de minha prima feito uma linha do horizonte na miragem do deserto de Hebron, deitado parece uma montanha raquítica do Sinai. Quando a vi a primeira vez, Khaled Al-Zahhari havia me mandado passar um recado para os nossos em Haram el-Sharif. Mais uma ação de rotina. Ela fazia ronda perto de uma delegacia que havíamos explodido duas semanas antes. Seus dedos se alongavam no fuzil e as mesmas nuvens que haviam deleitado os profetas cambiavam de cor lá no interior de suas pupilas enquanto ela me fixava o olhar – ou seria o haxixe que meu amigo Sah Men-Ezz tinha me dado faria efeito demais? Terceiro mandamento: mantém tão brilhantes as fivelas do uniforme da tua amada quanto as lâminas em que afias tua vingança. Claro que não posso escapar da minha sina – do meu pau que demarca cada vez mais latifúndios nessa selva de paredes e línguas arranhadas. Chupões no pescoço, coceiras nas virilhas, mordidas no dorso da mão denunciam os outros quintais por que me aventurei: Rachel somente vê e me diz, grave, que dez dos nossos foram abatidos hoje num bairro qualquer da sagrada cidade. As outras são ninharias. Aqui se morre na mesma xícara de café, minha mulher bem sabe disso – ela me solta pra ter-me cada vez mais preso. Quarto mandamento: foder de abismo em abismo é tua salvação diária – mas lembra-te, os três abismos da mulher amada é que elevarão à glória de teu deus, um após o outro, até, trinta e três vezes três, chegarás ao conhecimento do centésimo nome de Deus. Rachel tira devagar suas roupas pesadas do pó amarelado da terra por que brigamos há centenas de anos e eu me viro na cama e abro os olhos e contemplo seus seios epicamente esféricos e me lembro no ato da pizza que fiz para ela e que agora repousa resfriadamente kasher dentro do forno de microondas. E sei então que vou ter uma comoção porque Rachel vai olhar para mim e fazer aquele sorriso por saber que cozinhei para ela e vai se voltar na direção da cozinha e eu verei suas costas magras se aproximarem, gêmeas carnes exatas como os minaretes de uma mesquita de Sarajevo, seu ventre em breve um domo dourado, e estremecerei, por me lembrar do que faremos – e por me lembrar do que faremos em seguida. Me lembrar de para o que o Fazedor nos fez. Nos comer como cães. Por todo o dia e meu cansaço e os tiroteios dez andares abaixo. Quebrar todas as correntes para chegar perto dela. Tantos cadernos que rabisquei para me manter pensando só em Rachel, e uma outra anotação faz com que o Fazedor leve minha face para o azul de nosso paraíso – somente tento ser feliz, e outro sorriso falso esboço, ah, Allah, como sei, como sinto que só o Fazedor pode fazer de mim alguém feliz, mas de vez em quando nos mordemos como cães, e nos comemos como cães. Quinto mandamento: alimenta tua mulher como uma ave a seus pássaros, como um inimigo dissolve rancor sobre as raízes das árvores secas dos teus antepassados. Qual de nossos profetas antevirá primeiro nosso fim? Os ruídos que ela agora faz na cozinha, o tridente e a lâmina, azeitadas pelo meu óleo, se batendo no meu leite, no meu trigo, nos frutos vermelhos do meu corpo – sua fome sobre minha terra nunca termina. E o fogo em meu kiff ilumina o quarto se refletindo como um fantasma amarelado no dorso da Uzi que ela abandona ao lado da bolsa onde guarda o batom, os poemas que lhe escrevo, o pouco dinheiro que nos resta, as ordens que tivemos, um lenço, um cartão postal da Sérvia, uma bala de revólver prateada com nossos nomes, um player de música, um plástico que envolve frutas secas, sua cartela de anticoncepcionais. Esse quarto está caindo aos pedaços. Nós não estamos muito melhor. Mas pelo menos somos nós mesmos que acionaremos o botão vermelho da firma de demolição. Sexto mandamento: amarás os pés inchados da tua mulher quer eles estejam acima ou abaixo de ti. E que tuas risadas lhe transbordem o cenho, lhe transtornem o senso. Eu dizia a ela que era uma judia falsa. Que descendia de ciganas judias sérvias há centenas de anos – seu porte não poderia jamais esconder. E os mosquitos comiam meus braços – os pernilongos nunca acreditam se você diz que é sangue ruim. E nós somos um povo do deserto. Nós gostamos do terror. Nada do que é humano pode nos ser indiferente. Prezamos a deserção solar, a comunhão com o fogo. Dizíamos isso antes dos romanos, e pouco depois dos babilônicos, e continuamos a repetir o mesmo, através dos séculos. Incendiar templos está em nosso sangue, tão logo criamos nossos deuses com frutas secas e miragens. Sétimo mandamento: prezai o vidro moído na salada de frutas. Rachel comia a pizza de mussarela e manjericão com o olhar tremulando na luz do meu kiff, por trás da névoa esverdeada, a corrente prateada com sua identificação dupla pendendo do pescoço, cada lado para um deus, cada aréola de seus pequenos seios um diverso planeta. E me lembrei de que ela estava grávida. Que nome daríamos para o filho? Oitavo mandamento: deixar que tua mulher te penetre com ácido e açúcar, até que tua carne rija a leve para dentro de si mesma. O cheiro da comida me lembrou que estava vivo – mas o cheiro do suor de Rachel me lembrou de como seria minha morte. Teríamos somente mais cinco horas pela frente, talvez, nós três. A última refeição seria este nosso fatiado e fatigado café da manhã, com o café que ela agora preparava, o café turco que tanto gostamos de beber antes de nos enfiar nesses lençóis enroscados como duas cascavéis, até trocarmos um de pele com outro, nossas línguas brigando e comunicando nosso fim e nosso começo. Viver longe, viver uma vida além de qualquer Messias, de qualquer Profeta ou Fazedor qualquer, um inferno nosso particular, nossos nomes na história pobre de três tribos ridículas. Nono mandamento: tudo o que amas destrói, destrói tudo para amares o nada que seja – e te lembras disso quando dançares na sala com tua mulher, a cada passo, a cada tropeço. As bombas de antraz estavam preparadas já antes do café, ali em algumas mochilas ocultas sob a cama nossa de toda manhã. Em duas horas, Hossein e David deixariam na garagem a van que nos levaria ao reservatório de água dessa cidade seca. Apago o kiff e penso que em breve não mais existirão mentiras de Jerusalém. Em breve só existirão Rachel Pillstein e Hakeem Husam al Dim… e somente os muros, os minaretes, os arames farpados, as ruas estreitas, o ar espesso e turvo de sangue. Massageio os pés de minha mulher, os aproximo de meu ventre, de minhas faces, abro minhas narinas para deixar entrar em meu corpo o cansaço que sua caminhada exala. Décimo mandamento: concordarás com tua amada no instante em que ambos forem anjos. Bebemos nosso café. Acordamos para o que há por vir… mas antes, observando atento seus maravilhosos dentes, nuvens de leite sobre mim, não posso deixar de notar que Rachel tem covinhas nos cantos dos lábios quando sorri.