Deus é noise é noise é noise. Barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau. Os biciclopes, as dildodeidades, os homocangurus, meus irmãos em falta de armas, levantem-se. Tem que ter cor, tem que ter coragem, porque quem tem cor, age. Eu sou a soma de todas. Ou a ausência de nenhuma. A lua senão reflexo é. Anões sem braços – os bibelomilos –, as sereias gostosíssimas e tortas chamadas supermancas, e os tecnocentauros, possantes cadeirantes sem mais dinheiro pra comprar óleo para suas engrenagens. Aqui no vale da Zuma todos são zumbis a buscar a lua cheia para romper o plexo solar com a lâmina lavrada no batuque. Caçam sua passagem em Zuma, o vale do último gesto. Aqui ninguém mais agüenta a hora morta do mundo escuro. As gurias azuis com lixa na buceta, os homens-catracas descartados pelas últimas companhias de transportes coletivos, as anciãs-esteiras despedidas dos obsoletos supermercados. Aqui, agora, se pacta a autosabotagem, a vingança mútua, o rito das mônadas que não deram certo, a brodagem no vacilo – tudo na crocodilagem genérica. Sob o noise o noise o noise dos tambores unvulados dos Vovôs Coisos. Os que ficaram à margem, roendo o próprio osso. Meus irmãos em lapsos de DNA, os inventos que ninguém mais quis, nascidos em baias, por trás de vitrais, dentro de tubos de ensaio, a gênese ali no íntimo do asséptico de cada laboratório ou boca-de-porco genética do Estado da Transição. Meus irmãos, as mulheres lacraias, os homens aquosos, as mademoiselles mengele – com um implante neural no rabo, falam diversas línguas com a bunda. Um tesouro de genes recessivos, uma barragem que não se sabe fluxo nem nexo. Prontos para o meu veneno. Sim, foram dilapidados de credo – mas não de medo. Medo não tem segredo. Única força ganha na rapinagem. A crocodilagem é geral entre irmãos que não se reconhecem o sangue. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O vale do último gesto, berço da minha experiência. Campo de dispersão de energia, fuleiragem sem folia, a dança das carcaças ensaia seus passos na clareira aberta por meteoros. Lepra, varíola, aids, câncer e fogo selvagem. Uma usina de extertores. Zuma. Ouve-se por quilômetros o roar dos Coisos que se suicidam. É noise é noise é noise. Tudo aqui nasce sem longitude nem latitude. Um ímã de nada. Um casal de cada ímpar fode-se e se crava a lâmina no peito. Um do outro, zero a zero. Amor, enfim essa arca inversa. Enquanto se fodem e se fodem, eu preparo o difusor da Palavra. Um nome pra droga como outro qualquer. Um grave formado por batidas de crânios contra peles de ex-humanos. Zuma é o vale do último gesto. O que cria o homem. O que cria um novo homem. E é esse gorila albino que vem lhes trazer o conforto. Serei vosso Messias, vós que perdestes o sangue. Que nem pensariam em honra. Aqui não há tempo para árvores secas ou dramas de falas. Onomatopéia aqui é luxo. Mesmo os cegos escoam luz pelos olhos. Quatro ruas levam ao círculo onde se recolhe o sangue dos mártires de laboratório. Aos poucos, forma-se um lago nos Quatro Cantos de Zuma aqui onde era antes uma encosto do Morro da Conceição, perto do antigo Alto Zé do Pinho. Aqui em Recífilis. Um poço suga a doença e a leva para o mar. É a crença. É para lá que desço, carregando minha mochila de sacanagens. Não prender a passagem, essa a rima. É noise é noise é noise. Há cinco anos eles aqui chegam pra morrer. Mas de hoje em diante o sangue correrá de volta a suas veias. O homem só se conhece na destruição. Verto o veneno sagrado na vala de todos os sangues. A Palavra chegará aos vossos corações, mas falará em um dialeto que desconheço. Não há tradutor para o medo. Noise é noise é noise. Cascatas de ruído branco, a cor da coragem. Os Coisos se levantarão ás cinco e meia da madrugada. Uma única estrela sobre as escarpas das quatro montanhas que velam o Vale de Zuma. O rio subterrâneo que flui da lua para o mar. A Palavra se ligará em todos os fluxos, lava gelada. Meu trabalho é lento e continuado, não tem descanso. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O raio da prata sobre esses subumanos de lata. O poço reflete rubros meus olhos, a lua. Uma nuvem. Mergulho. Logo caminharei sobre as águas. Butthole Kongo. Um mensageiro. Ouço as novas vozes dos Coisos, meus filhos. E sumo.
Essa entrada foi postada em Terça-feira, Abril 18th, 2006 às 1:23 am sob a(s) categoria(s) Uncategorized. Você pode acompanhar as respostas desse post através do RSS 2.0feed.
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Abril 24, 2006 às 4:11 pm
que as cascatas angorás lhe sejam leves às costas, chapa. é o que tenho dito.