3 : Baby Gasoline and other songs

Sou a única versão dos fatos, você vai ter que acreditar em mim. Assim, creia: meu nome é Helena e eu adoro cheiro de gasolina. OK, você pode achar estranho esse início – desculpe; não sei me identificar como Helena H., 25, fotógrafa e garota-propaganda [você acredita nas legendas das fotos dos diários? acredita em noticiários? que aquelas coisas realmente aconteceram? Ou tudo não seria uma conspiração para anularmos nossos dias em detrimento de naves que caem no Paquistão, a última besteira proferida pelo presidente da corporação ou o novo holodrama que vai mudar a sua vida?], e sou uma mulher que não gosta de escrever usando esses handrands, sou estabanada, vivo quebrando as unhas nos controles; por isso escrevo à mão, e dentro da minha banheira, de preferência. Sim, estudei caligrafia, essa coisa arcaica, na época em que tatuei as rosas que decoravam todo o lado esquerdo de Salvia Divinorum… Não, esse início não está mesmo bom, mas estou tão nervosa – é a primeira vez que você olha para mim, seus olhos se apertando a cada letra dessa caligrafia flutuante como água, minha linguagem, buscando capturar você de corpo todo; e não compreendendo, talvez, que raios vim fazer na sua vida, quem sou, o que quero. Tudo o que eu posso dizer no momento é que meu nome é Helena H, que sou fotógrafa e que os pêlos da minha nuca se agitam quando sinto o cheiro de gasolina no ar, e que foi por isso que resolvi te escrever. Gasolina hoje que é tão cara quanto o perfume mais impossível. Se fosse antigamente, talvez quisesse só morrer e me mataria de algum modo idiota, já pensei em me afogar durante as tormentas de verão, quando os azaratones sobem pelos postes e pelos antigos prédios do século dezoito comendo os passantes vivos; mas pensava que em vez de mergulhar numa boca de lobo poderia é cair na boca de um azaratón então preferi virar outra coisa – outras coisas: ser muitas diminui qualquer solidão. Minha mãe, Anjelika Zapata, costumava contar as histórias do Grande Incêndio dos RGs que rolou lá faz quase quinze anos, eu deveria ter uns dez, quando as cirurgias plásticas e as metamorfoses orgânicas ficaram tão baratas quanto os passaportes no câmbio negro. Nascia a Era das Personalidades Intercambiantes, foi assim que a mídia registrou o fato – entanto, logo os fatos começaram a se dissipar pois os jornalistas também viciaram na coisa e passaram a assinar matérias com nomes cada vez mais diferentes e aí ninguém mais acreditava em nada do que lia; tinha sempre um novo impostor contando novas mentiras corporativas sobre política, futebol, comportamento, economia, cultura… Sim, eu li os Livros Proibidos… Você sabe bem disso, não consigo me esconder de você. Hoje, fico aqui falando com você mas sei que no fundo você sou eu – e isso é o que mais me irrita: mesmo com a possibilidade de sermos outros, continuamos falando somente para nós mesmos; como faziam os blogueiros do começo do século, máscaras em frente ao espelho, ao infinito… Preciso de uma bebida. Antes que eu invada um posto e peça pra me enfiarem gasolina azul nas veias. Foda. Ser várias não é pra qualquer uma.

Uma resposta para “3 : Baby Gasoline and other songs”

  1. bruna beber Disse:

    opa, brigada. volte sempre! um beijo.

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