12 : Dia dos Namorados

Julho 27, 2006
Lost among the subway crowds
I try to catch your eye

Leonard Cohen, “Stories of the street”

– Mas você nunca morou com ninguém?

– Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo mesmo…

Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.

– Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Gas Gas.

Ele só me chama de Gas Gas. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Jamais se lembra de que já entrou em mim quando eu era outras.

– A verdade é que nunca sinto vontade de ter nada – ele repete.

Eu já senti vontade de tê-lo. Durou umas horas, e meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e ele avisou: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande, me disse. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto. Falou o mesmo que agora:

– Vontade de ter o que não poderia jamais, sabe.

Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa – ele vai me achar doida.

Se achasse que sou louco, trocaria meu nome – tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.

Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar – agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher hoje em dia.

– O ar é baço, aqui… Não tem ao menos um café nesse antro?

– Acho que na entrada. Olha essas roupas… – rio.

– Não dá pra acreditar que vestiam isso vinte anos atrás.

– Esse texto sugere que as roupas de baixo eram para as consumidoras usarem no Dia dos Namorados… saca o que pode ser isso?

– Parece que antigamente havia um dia do ano em que os namorados se davam presentes. Algo assim.

– E o que eram namorados?

– Suponho que fossem casais temporários, alguma espécie de relação afetiva. Acho que não era exatamente casamento… mas também não era o que se costumava dizer amizade.

– Você aprendeu isso na escola?

– Não. Li uns dos Livros Proibidos…

– Eu também! Mas não consigo lembrar disso…

– Você não lembra nem de onde dormiu ontem!

Levei Zed para o cafofo de Salvia. Essa minha id, naquela época, trabalhava com eletroperversão histoimagética num edifício abandonado da Vila Madalena. Quando o rio subiu, em 2033, derrubou um monte de prédios. Alguns sobreviveram, como aquele da Fradique Coutinho. Cheguei antes de todo mundo, tomei um dos últimos andares para mim e morei lá dois anos, brincando de Salvia. O dinheiro com eletroperversão era bom: podia comprar várias ids. Consegui montar uma arapuca bacana pros caras legais que catava na feira. Mas tinha algo errado em Zed. Ele não parecia alguém recriado. Parecia que tinha caído do nada, nesta Cidade-Olho. Parecia mesmo alguém autêntico – embora negasse.
– Você tem certeza de que as águas não sobem aqui?
– Como posso ter certeza? O que sei é que a última vez em que esse shopping foi inundado tem uns dois, três anos, acho que foi 2053. Saca as marcas das paredes. Mas até que está bem conservado, né?
– É… olha essa loja de música… também tem um display falando de uma promoção para esse tal Dia dos Namorados. Será que foi nesse dia que rolou a Grande Enchente do Tietê?
– Se eu tivesse um Jaeh, via agora. Mas detesto essas coisas que fazem a gente lembrar de tudo muito rápido… eu gosto de esquecer, sabe? Ficar com aquele frio na barriga que dá quando a gente não lembra…
– Heheh… Sei.. Eu tenho a impressão de que tinha um Jaeh implantado, mas acho que precisei tirar… me dava coceira. Tenho umas alergias com biosilício, nunca descolei remédio pra isso…
Tudo o que queria era segurar suas mãos, levá-lo para minha cama de novo, qualquer cama, deixar que me apertasse e me olhasse como se eu fosse única, como na noite em que o levei à casa de Salvia, única e ao mesmo tempo conectada a ele. Mas não sou mais Salvia – e ele nunca vai se apaixonar por mim. Apaixonar-se. Li isso nos Livros Proibidos. Tinha a ver com aquela instituição chamada casamento, considerada antieconômica pelo Estado de Transição [engraçada a expressão – faz uns 30 anos que o Estado é o mesmo...] e punida com a extradição pros Territórios dos Coisos. Por que Zed é o único cara de quem as mãos nunca me escapam, na memória da pele? Não costumo me lembrar dos caras com quem… Ele, pelo visto, também não. Mas se dissesse a ele que Baby Gasoline é Salvia Divinorum…
Tudo o que eu queria era dar um soco na cara dele.
– Você já teve alguém de quem gostasse muito?
– Como assim, ter alguém? Um escravo, um robô, um Coiso?
– Alguém com quem você tivesse… sabe…
– Não sei, não me lembro… te falei, tenho uns problemas de memória.
– Nunca pensou em ler as digitais ou a íris no Neverland?
– Que digitais, que íris, Gas? Não tenho mais nada disso. Até minha arcada dentária é de pseudocálcio. Devo ter sido fuçado nalguma boca-de-porco na África, na Ásia, sei lá. Sinto que não é seguro acessar o Neverland. Não sei bem no que eu trabalhava, antes dos meus mnemoimplantes irem pro saco…
Chegamos no fim de outro corredor, descemos as escadas. O Museu do Consumo Conspícuo está às moscas a esta hora, cinco da tarde. Daqui a pouco vêm as chuvas de fim de dia. E as pessoas ficam tensas. Eu me garanto, na minha barca. E, de algum jeito que não sei por quê – confio em Zed.
– Olha isso!
Ao virarmos a esquina, depois de uma megaloja de moda, no chão à frente de uma delicatessen, o que parecia ser uma pessoa caída.
– Pelas roupas, é um Coiso…
O peito estava aberto. Da mão direita pendia uma ferramenta estranha.
– Talvez tivesse sido um Coiso tentando arrombar uma loja. Deve ter tomado um choque elétrico no peito, caiu e morreu aí mesmo.
– Era uma mulher… com certeza era uma mulher, pela túnica.
– Ela queria arrombar essa delicatessen aí na frente… Mas e se arriscou tanto assim só pra roubar uma cesta de chocolates podre, de vinte anos atrás?
– Talvez quisesse dar de presente pra algum namorado – ironizo, sem deixar de me deter sobre os miasmas e humores que escapavam da carniça fedorenta. O teto do shopping iluminava irrealmente a carcaça, dando a impressão de uma flor a se entreabrir. Moscas zumbiam sobre o tórax trucidado, dali saíam bandos de larvas, escorrendo num líquido grosso. Tudo isso ia e vinha em ondas, como se o corpo vivesse, e até se multiplicasse. O mais louco é que, na outra esquina, um pitviralata fuzilava os olhos pra gente – talvez achasse que fôssemos comer a sua caça. Precisei os olhos de Zed. Ele tinha a mesma íris que na noite com Salvia. Quem sabe as mesmas digitais. Talvez ele mesmo não soubesse que não é mais Zed, e sim outra id largada por algum Zed, desfazendo-se sob o vento e a garoa cítrica. Me pegou nos ombros, me tirou dali, suave.
Enquanto saíamos, o cão caía de boca naquele esquecido corpo.
Na rua, em frente ao shopping morto, Zed me parou. Tinha lágrimas na face. Parecia antigo, uma foto em sépia. Me puxou e me beijou. O cheiro do cadáver ainda ressoava nas narinas, ao mesmo tempo em que sentia que nunca mais queria sair das mãos de Zed. Havia lido algo sobre isso nos Livros Proibidos. Ainda sentia seu gosto na língua quando soltei, sem pensar:
– A gente se vê?

4 : Os cães do curandeiro de Caruaru

Julho 10, 2006
Queres quantas hoje? Tudo isso? Olhe. Tu precisa se cuidar, galego. Rapai. Quanto a mim a decisão não é de deixar a boemia, velho. Mas de ela deixar de mim. Tu não. Tu pode desligar algum negócio aí. Vê se não tem algum treco bráite oráite. Por trás do dente. Embaixo do suvaco. No lado de dentro do furico. Óa. Óa só. Ouvisse? Hum. Foi, foi. Andei tomando uns cactos. Tu sabe. Aquela balinha que tu morde o espinho e explode o esprito no céu da boca. Tratamento contra a dor. Essa que vem de um dentro que a gente não sabe de onde vem. Um zumbido nos nervos. E tu não pára quieto. Dançar nu e encoxar priqituim atrás do tanque e quebrar garrafas por tudo quanto é cabeça. Isso nos dias pares. Nos outros é só desespero mesmo. Cem vermelhas, cem azuis. Duzentas hóstias? Ah, pra menina. Rapai, cuidado com as mulheres dessa cidade, galego. Elas têm o veneno mais sublime. Óa! Olha só. Ouvisse o latido? Estranho. Ninguém nesse prédio tem dinheiro pra ter um cachorro não. Mas escute só. Ouve. Ouve. Outra noite. O controle, o teu controle. Tu já procurasse dentro da orelha? Atrás do joelho? Debaixo do freio do pau? No couro cabeludo? Óa! Foi, foi. Então. Escuta essa. Eu tarra bebo e meu amigo Podrinho me deu um cacto diferente desses que eu vendo. Dali tudo me encheu. Fui para casa e me sentei num sofá. A única coisa imóvel na minha frente nos últimos dez anos era minha parede azul, que com a cor de laranja desse céu ficava verde que só a porra. E nessa noite o verde tava lilás. Fiquei ali sentado olhando fixo a multidão de alfinetes pretos esvoaçando feito tanajuras em uma tarde quente de Caruaru. Daí os latidos. Óa, óa: ouvisse agora? Nem? Mas eu dizia. A multidão de alfinetes ia crescendo e tomando formas. Eu vi violinos, eu vi sombras flutuantes. E vi rabos e vi focinhos e plumas resvalando pelos meus pêlos, minha barba, meu cabelo, os fios que saem de meu nariz. Cheiro de mato, de cio e de tormenta. Meu queixo travou, eu me agitava, dei de salivar e respirar rápido. E detrás das cores da minha sala ensolarada eu comecei a ver cachorros por tudo que é lado. Cachorros subiam pelos móveis. Cavavam debaixo do tapete da sala. Saíam da cozinha, do banheiro, do quarto. Cachorros me lambiam e me cheiravam o cu e os deles entre si. Os cachorros latiam e mijavam nos pés das cadeiras. Os cachorros arrancaram a cabeça do meu Mojo e vieram me trazer os pedaços nos pés. Os cachorros comeram todas as comidas da minha geladeira e cagaram nos lençóis da minha cama, os cachorros chupavam o próprio pau e lambiam a própria buceta, os cachorros comeram minhas roupas brancas de médico. Os cachorros latiam e bufavam e peidavam e suavam. Os cachorros fodiam pela casa e os cachorros se esfregavam em minhas pernas ou então deitavam em cima dos meus pés pra dormir… os cachorros danados me aperrearam a noite toda. No dia seguinte comprei um pacote de ração canina. Vai que. É 500. Cospe aqui, Zed. Eita. Foi pra conta. Cuspe bom pra porra desse galego! Óa, óa. Preste atenção. Ouvisse?