Queres quantas hoje? Tudo isso? Olhe. Tu precisa se cuidar, galego. Rapai. Quanto a mim a decisão não é de deixar a boemia, velho. Mas de ela deixar de mim. Tu não. Tu pode desligar algum negócio aí. Vê se não tem algum treco bráite oráite. Por trás do dente. Embaixo do suvaco. No lado de dentro do furico. Óa. Óa só. Ouvisse? Hum. Foi, foi. Andei tomando uns cactos. Tu sabe. Aquela balinha que tu morde o espinho e explode o esprito no céu da boca. Tratamento contra a dor. Essa que vem de um dentro que a gente não sabe de onde vem. Um zumbido nos nervos. E tu não pára quieto. Dançar nu e encoxar priqituim atrás do tanque e quebrar garrafas por tudo quanto é cabeça. Isso nos dias pares. Nos outros é só desespero mesmo. Cem vermelhas, cem azuis. Duzentas hóstias? Ah, pra menina. Rapai, cuidado com as mulheres dessa cidade, galego. Elas têm o veneno mais sublime. Óa! Olha só. Ouvisse o latido? Estranho. Ninguém nesse prédio tem dinheiro pra ter um cachorro não. Mas escute só. Ouve. Ouve. Outra noite. O controle, o teu controle. Tu já procurasse dentro da orelha? Atrás do joelho? Debaixo do freio do pau? No couro cabeludo? Óa! Foi, foi. Então. Escuta essa. Eu tarra bebo e meu amigo Podrinho me deu um cacto diferente desses que eu vendo. Dali tudo me encheu. Fui para casa e me sentei num sofá. A única coisa imóvel na minha frente nos últimos dez anos era minha parede azul, que com a cor de laranja desse céu ficava verde que só a porra. E nessa noite o verde tava lilás. Fiquei ali sentado olhando fixo a multidão de alfinetes pretos esvoaçando feito tanajuras em uma tarde quente de Caruaru. Daí os latidos. Óa, óa: ouvisse agora? Nem? Mas eu dizia. A multidão de alfinetes ia crescendo e tomando formas. Eu vi violinos, eu vi sombras flutuantes. E vi rabos e vi focinhos e plumas resvalando pelos meus pêlos, minha barba, meu cabelo, os fios que saem de meu nariz. Cheiro de mato, de cio e de tormenta. Meu queixo travou, eu me agitava, dei de salivar e respirar rápido. E detrás das cores da minha sala ensolarada eu comecei a ver cachorros por tudo que é lado. Cachorros subiam pelos móveis. Cavavam debaixo do tapete da sala. Saíam da cozinha, do banheiro, do quarto. Cachorros me lambiam e me cheiravam o cu e os deles entre si. Os cachorros latiam e mijavam nos pés das cadeiras. Os cachorros arrancaram a cabeça do meu Mojo e vieram me trazer os pedaços nos pés. Os cachorros comeram todas as comidas da minha geladeira e cagaram nos lençóis da minha cama, os cachorros chupavam o próprio pau e lambiam a própria buceta, os cachorros comeram minhas roupas brancas de médico. Os cachorros latiam e bufavam e peidavam e suavam. Os cachorros fodiam pela casa e os cachorros se esfregavam em minhas pernas ou então deitavam em cima dos meus pés pra dormir… os cachorros danados me aperrearam a noite toda. No dia seguinte comprei um pacote de ração canina. Vai que. É 500. Cospe aqui, Zed. Eita. Foi pra conta. Cuspe bom pra porra desse galego! Óa, óa. Preste atenção. Ouvisse?
Julho 17, 2006 às 4:15 am
Bressa, quanto tempo… Eta curandeiro da porra esse. E sua narrativa cada dia mais audiovisual. Abraços do cerrado ensolarado.
lorenzo